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14.12.04

Estoniana

Sob um céu de granito, com os olhos envoltos em bolsas de suor e cílios quase brancos, Mariano Brickcovits, 23 anos, sobe no fio de civilização que o separa do vazio em algum sentido imensurável a sua frente. Equilibra-se, primeiro com um pé. Logo, a despeito do vento quente que chega pelas costas, é um Cristo com uma estranha mochila, de cabelo escovinha, camisa branca enfiada na calça jeans manchada e sapato lustrado há pouco: braços abertos, rosto brevemente caído para a esquerda, pálpebras ágeis: uma estátua de pescoço avermelhado e rosto lívido perante o vão do Masp. Embaixo, à frente e aos lados o oceano das máquinas paulistana constrói novas correntes, entradas, condutores. Mariano parece entender todo o fluxo, ergue a cabeça ferozmente, ainda de olhos fechados. Então volta devagar, uma fera censurada, e abre a boca, como se algo fosse largar um débil vômito. Mas não. “O poeta-suicida” começa a declamar. O som sai baixo, grunhido, envolto propositalmente em saliva.

Sim,

eles vêem:

armados de laços

De aço e:

Nanquim

Salta. É observado por um office boy desgostoso com a namorada, por três estudantes do ensino básico que naquele dia tinham sentido pela primeira vez o gosto do cigarro, por um executivo júnior demitido 47 minutos antes, por um homem calvo capaz de fugir à primeira pergunta, por duas amigas que foram até ali para fofocar sobre o chefe de ouvidos estranhamente bem conservados e por uma aposentada que acudiu, na baixa velocidade que a osteoporose lhe permitia, o “moço bonitinho que queria se jogar lá de cima, veja só”. Mas não conseguiu chegar até Mariano. Foi interrompida por Estela Cinco, “musa, ajudante, bibliotecária e escrava sexual de gênio”, como diz a camiseta justa que vestia e marcava os seios flácidos. Estela, que segurava a câmera com a qual registrava em tons expressionistas o momento, pôs a mão na testa da aposentada, esbravejando:

-Isso é arte, velha. Leve suas tralhas sentimentais para outro celeiro.

Os outros riram e cutucaram-se e apontaram o pequeno rebuliço. Não sabiam quem é Mariano e sequer entendiam o que ele estava fazendo. “Pensei que fosse um desses tiozinhos que sacam a beleza da bagaça, brou”, disse um dos estudantes.

Vivessem na Estônia de poucos anos atrás, estariam de joelhos, pedindo autógrafos à custa de sangue, atracando-se para tocar aquele que foi alçado por publicações daquele país ao patamar de “o mais promissor artista da para século XXI”. O que Mariano fez? Uniu poesia a esportes radicais!

O história do Artista segundo ele mesmo: “Ah, tudo começou em Brotas, no interior desse estado catártico de anseios deploráveis e cabeças rolando cheias de areia do tempo, essa coisa feérica que é sentir a existência sublimando-se rumo ao Palácio dos Bandeirantes...”. Como se percebe na primeira conversa, o forte do Mariano não é o diálogo ou o memorialismo – impossível entrevistá-lo: seu pensamento não possui cabrestos e sua linguagem desconhece limites lógicos. Estela, também sua relações públicas e câmera woman, arrisca uma possibilidade. Depois da filmagem no Masp, já em sua casa no Brooklin, com o pára-quedas de Mariano devidamente dobrado, enche a mão de gordurosos amendoins fritos e diz:

-Olha, ele sofreu um acidente, em 1999, né?[arroto] Tava descendo de rapel, bateu a cabeça, maior sanguera. Daí, quando acordou do coma, quis voltar ao local do acidente. Foi só colocar os pés ali na beira da montanha que ele desandou a falar umas coisas engraçadas.[longo arroto]

As “coisas engraçadas” a que ela se refere são tratadas no livro “Mariano, homem do ano”( Vikerkaar, 2004) do atarracado e hirsuto promotor de festas estoniano Piotr Huoel, como “o limite entre a capacidade humana de se debruçar sobre si mesmo ( de afiar o auto olhar cruel nas paredes porosas deste umbigo cognitivo) e o próprio desaparecimento físico, tratando-o não como um fim, mas como o único combustível não fóssil de tudo que existe, rindo da cultura do risco que o banaliza como uma mera normalidade – com certeza não poética” (tradução livre).

Huoel é o pai midiático de Mariano. Conheceu-o no Carnaval de Salvador em 2001, para onde o agitador cultural fora em busca de uma mulata que conhecera na Internet e que descobriu, ao chegar lá, ser uma prostituta. Contrário ao turismo sexual, tentou um pacote promocional para pular de pára-quedas oferecido pelo hotel. E foi então que viu o homem franzino e loiro (quase engolido pela enorme mochila e sempre acompanhado de uma senhora de vestes indecentes) sentado. O homem que fechou fortemente os olhos, antes de pular, e que disse palavras que o estoniano muito doido nunca esqueceria (“tarde de sol/ criança lunar/ nasceu amputada/ de solidão”). Versos que, anos mais tarde, ele seria capaz de declamar prontamente, com os olhos brilhando.

Depois, em terra firme, aproximou-se. Tentou conversar. Difícil “Ele estava arredio, uma de suas fases mais atonais mesmo”. Mas Estela falava.E muito. Explicou-lhe o acidente, a surpresa, a revelação. Também explicou o passado de vendedor de carros em uma revendedora de usados em uma decadente Vitória (ES), a paixão surgida em uma festa de aniversário da filha de uma vizinha. Falou sobre o início difícil - ela tinha 30 anos a mais que ele – sobre as tórridas noites em um auto-lanche da cidade, sobre como teve a idéia de começar a gravar tudo o que o já acidentado marido dizia e, finalmente, sobre como agradeceu a vontade incessante dele de entrar de cabeça nos esportes radicais: ela adorava aventuras e acabava-se de se aposentar pelo Intituto Médico Legal de Vitória.

Huoel apaixonou-esse pela força imagética e espiritual do “poeta-suicida”, pela história ímpar e logo lhes comprou um par de passagens. Os levou para a Estônia e fez Mariano percorrer todos os programas de auditório do país (só no Canal 8 estoniano são sete programas do tipo por semana), inscreveu-o num show de calouros literário da principal rádio de Taliin e até conseguiu que ele gravasse um disco minimalista com uma espécie de José Miguel Wisnick de lá, Rivo Rõkov. Ao vivo, só falava em português. Raramente havia tradutores. Ainda assim, todos pareciam gostar do que ouviam e não entendiam.

Mariano era então um mudo e abrupto superstar estoniano. O dinheiro fluía como um mosquetão livre de nós. Não podia mais andar anônimo pelas ruas de Taliin sem ser agarrado, fazia apresentações conceituais na Universidade de Tartu. Foi parte do júri oficial de uma mostra de documentários sobre os nativos de pele alva; era aclamado como o “profeta de um lindo renascer em cabos entrelaçados” em grafites pela cidade. Figurou em caixas de leite e até um preservativo “larger” levava suas imagens e palavras. Uma das novelas mais populares da Estonia chegou a ter um personagem brasileiro e as trocas comerciais entre os dois países aumentaram 2,8 %. Algo acontecia, o “furacão mudo e enigmático chamado o que?, Chamado Mariano!”, como crianças da classe média alta diziam no final do período escolar em brincadeiras de roda.

Levemente entediado com um mundo que não parava de girar a sua volta, logo teve suas primeiras experiências com o submundo estoniano: orgias com “pálidas selvagens” (como escreveria para a mãe mais tarde) e infinitas sessões de meditação turbinadas pelo Rjiituh, o daime feito com água de neve derretida por obesos e peludos homens com mais de 80 anos em um secreto ritual local. Fez uma ou duas letras para uma banda de polka local, “La Banda de Polka de Estonia” e freqüentava um bar reconhecidamente anarquista no centro velho da capital. O que havia?

A mulher também se perguntava isso. “Foi aí que ele começou a perder o tônus artístico”, responderia, anos depois, Estela. Ela tinha sido, de certa forma, posta de lado no processo de arrebatação pública a que Huoel tinha submetido Mariano: perdera espaço na cama do Artista para estonianas bronzeadas e em seu coração para uma tristeza que crescia junto com o neve acumulada lá fora. O inverno chegara para a Estonia e para Mariano. E seus versos pareciam ter simplesmente se esgotado, até porque não lhe davam mais sessões gratuitas de tirolesa, rapel e congêneres. O frio era tanto que todos as atividades esportivas ao ar livre haviam sidas proibidas.

Pouco falava e quando o fazia algo era um misto de vergonha e auto-piedade. Dizia aos novos amigos , com frases estranhamente claras e diretas, que era uma farsa, um mentiroso. Nessa época de vacas e idéias magras é que ele lançou um panfleto em um encontro de esqui altamente concorrido no. No papelzinho amarelado, espalhado por um avião que nos dias de semana carregava pesticidas, um desenho dele mesmo enclausurado e uma frase: “Eu morri”.

Poucos entenderam, mas o choque na imprensa, que comparecia em peso ao evento, foi quase que imediato. Telejornais enfiavam câmeras em seu rosto já macilento e repórteres abelhudos vieram ao Brasil descobrir a verdade sobre Mariano Brickovits. Colunistas articulados revelavam as festas e achavam as mulheres e os falsos religiosos que tinham as tinham freqüentado. Se saísse na rua, era taxado de mal agradecido, maldito, brasileiro e, ironicamente, de suicida. Até Estela deu uma entrevista o jornal “Eesti Paevaleh” falando sobre a ruína da vida privada do Artista, pela qual pagou com uma tremenda briga - tremenda a ponto dos vizinhos albinos do casal chamarem a polícia. Um crítico literário da revista Vikerkaar disse, em lúcido artigo: “Mariano parece, finalmente, ter entendido que não se pode desafiar a morte sem sofrer algum tipo de conseqüência. De uma maneira bisonha, fez sua cova e escreveu sua lápide. Que Olovon guarde sua alma”.

Ele voltou ao Brasil, ele reencontrou tirolesas, base jumps e rapels; ele reencontrou as palavras, as mastigou, engoliu as mágoas, ele olhou para o mundo como uma criança e ouviu os anjos chorarem. Viu as dívidas comerem a aposentadoria da mulher, a amou como louco, aprendeu a passar roupa e a ler auto-ajuda, viu os anos chegarem e a mente ás vezes querer explodir; ele aprendeu a gritar para vender fitas k-7 e, recentemente, Cds com seus poemas no Largo da Batata, em São Paulo; e Mariano sabe que ainda é o mesmo adolescente que percebeu que perante a vertigem e o ridículo da existência, nos agarramos ás palavras e ao medo com o mesmo entusiasmo com que um homem, um dia, dobrou o primeiro pára-quedas. Ele ainda é um Artista.