Uma equação literária
Ao contrário das pessoas normais, que não têm consciência de sua própria razão, os loucos têm ciência de sua loucura. Alguns poucos brincam com isso. Jogam. Fazem dos homens e mulheres joguetes para a sua mente criativa. Criam descaradamente. São os gênios. Os raros gênios de verdade, que aparecem de tempos em tempos nas mais variadas áreas do conhecimento humano.
Um deles é o brasileiro José Airton Ribeiro, o Macarrão, como é conhecido carinhosamente pelos seus amigos da Academia Campinense de Letras por causa de seus longos cabelos louros, com alguns fios ruivos, que conferem à sua vasta cabeleira um aspecto reconfortante de macarronada de domingo. Embora sinta-se um pouco desconfortável com a alcunha, José Airton Ribeiro prefere não causar confusão: "Lunatacs prodicentum, tub causen", afirma. "wsder, drftgty hujiko lokijunm". Ribeiro, como se vê, nas faz concessões.
O motivo é claro. Aos 90 anos, sua capacidade intelectual lhe reserva o destino de o mais importante crítico literário da história da humanidade, título conferido pela International Universities Association, fórum criado pelas melhores universidade do mundo. Seus livros circulam em edições limitadas, restritas a poucos pares. Seu salário mensal, uma pequena fortuna estimada em 600 mil dólares, valor equivalente ao que recebe o craque Ronaldinho no Barcelona, é bancado pela Universidade de Dussex, da Inglaterra. Segundo o contrato firmado entre Ribeiro e os súditos da rainha, o brasileiro se dispõe a não divulgar, de maneira alguma, cada frase do que escreve. Os direitos sobre a sua obra pertencem exclusivamente à Universidade, que pretende estudar em primeira mão as intrincadas conexões literárias efetuadas pelo que eles chamam de The Spaghetti. Ribeiro, por sua vez, não admite escrever em qualquer outra língua que não seja a sua própria. Língua, aliás, que ele não revela o código. Hoje, o maior desafio dos estudiosos ingleses é tentar decifrar seu idioma. E, depois, entender as suas idéias.
O cérebro de José Airton Ribeiro não suporta os limites impostos pelo mundo tangível. Sente-se desconfortável em esquemas linguísticos históricos. Ou seja: todos os idiomas já criados na face da terra. Como estudioso incansável, Macarrão aprendeu todas as línguas do mundo. Além disso, sua capacidade matemática ímpar lhe permitiu inventar uma complicada equação, baseada em funções cartesianas e no teorema de Fermat. Com este feito, Ribeiro pode não só criar seu próprio idioma como também prever a evolução de todas as línguas do planeta. O problema é que são poucos os que entendem o funcionamento da célebre equação, conhecida como O paradigma de Ribeiro. Além disso, compreende-la é algo que leva tempo. Quando foi divulgada pela revista Science, em 1978, Macarrão foi ridicularizado. Até porque escreveu o artigo de explicação para a comunidade científica na língua para a qual, segundo a sua equação, convergem todas as línguas do mundo.
Em um de seus raros ataques de fúria – Ribeiro fala como um canário canta – fez uma concessão: para demonstrar a viabilidade de sua equação, traduziu o artigo para o inglês e submeteu sua equação a uma prova técnica, para que seu funcionamento fosse comprovado pela comunidade científica. Não deu outra. Hoje, passados 26 anos , Ribeiro ganhará o prêmio máximo da Universidade de Harvard por ter previsto o surgimento da linguagem "naum, eh so alegria", usada pelos adolescentes em blogs e conversas de computador. Isso, anos antes de qualquer sinal de internet no planeta. Justa premiação para quem, desde aquela época, amargou o pior que o ostracismo tem a oferecer.
Nascido em 1904, na cidade de Americana, estado de São Paulo, José Airton Ribeiro aprendeu a ler e a escrever com 2 anos de idade. Seus pais, agricultores analfabetos, não entendiam o que se passava. Achavam que o menino tinha algum problema mental, algo que lhe conferia algumas habilidades – como aprender a falar antes de andar – mas completamente incapaz de cumprir atividades básicas, como sentir fome. Desesperados, cansados – tinham que se lembrar de dar comida para o rapaz até os 15 anos, quando ele saiu de casa – o levaram para Campinas. Lá, o apresentaram para Barão Geraldo, dono das terras na qual os colonos trabalhavam em Americana. Encantado com as habilidades do jovem José Airton Ribeiro, o barão lhe enviou para a Inglaterra. E lá Ribeiro amealhou o conhecimento que o fez, até 1978, a maior celebridade em assuntos literários na Europa e nos Estados Unidos. Sua capacidade de descobrir conexões lingüísticas em obras díspares, como Dom Quixote, de Cervantes, e Fim de Partida, de Samuel Beckett, seu método de análise baseado em logaritmos, o fizeram pioneiro da introdução da matemática nos assuntos literários. Consta que Churchill se referia a Ribeiro como "patrimônio vivo da humanidade".
Seus dissabores começaram com a publicação do artigo na Science. A Universidade de Cambridge, onde criou a cadeira de Estudos Literários Matemáticos, o aposentou quando ele passou a lecionar na língua derivada da equação. Desgostoso com o maior fracasso de sua vida justamente naquilo que devia ser a sua coroação, Ribeiro voltou para o Brasil. Foi morar em Campinas, em um apartamento pago pelo espólio do Barão Geraldo. José Airton Ribeiro decidiu que seria um homem normal. Para tanto, isolou-se. Não leu mais nada, não escreveu mais uma linha. Sem mulher, sem filhos, quis aprender como sentir fome, como sentir frio, como as pessoas conseguem amar umas as outras. Até que uma equipe de pesquisadores da Universidade de Harvard, a única que acreditou na equação em 1978, conseguiu provar que José Airton Ribeiro estava certo. Descobrir seu paradeiro foi simples. Vaidoso, Ribeiro deixara uma carta à direção de Cambridge. Nela havia todas as coordenadas para encontrá-lo. E estava escrita em inglês, em português, em alemão, em francês, em espanhol e na língua que hoje adolescentes de todo o mundo usam em suas conversas pela internet.
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1 Comments:
Sensacional!
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