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27.12.04

Meias palavras, ações completas

"T pod deix tu orig, ma a orig nun pod deix a t"

(Didier Laframboise)

Não é recente a idéia de que meias palavras bastam aos bons entendedores. No entanto, foram poucos os homens que levaram a concepção às últimas consequências.

Um deles é o literato e monarquista franco-polinésio Didier Laframboise (1793-186?), pioneiro ao levar o "mei pala ba" a todos os cantos do arquipélago localizado no meio do Oceano Pacífico.

Depois de sair de Marselha se dizendo-se um dos representantes legítimos de Atua Fafine, o Deus criador polinésio, e percorrer os umbrais de toda a Europa, Laframboise aventurou-se a desbravar a Oceania. O Novíssimo Mundo se apresentava.

O auto-proclamado representante de Fafine o fez logo após a ascensão de Carlos X ao trono, com a restauração da dinastia dos Bourbon e a queda dos simpatizantes de Napoleão do poder. A monarquia francesa rapidamente se encantou com a fleuma arrebatadora que vinha do jovem poeta e redator dos editais do novo governo, o qual defendia com ardor. Desbravador. Magnânimo. Original, embora nem sempre compreensível.

Laframboise, naquele mesmo ano, viu-se no topo do mundo. Ou ao menos perto dele. Seu melhor amigo, o ultranacionalista Jules Armand de Polignac, foi indicado a ministro chefe do Rei. A Grande França que os monarquistas sonhavam estava perto. Faltava o além-mar.

E foi aí que Laframboise viu sua nova chance de se aproximar do poder. Mas não de forma torpe. Ele queria influência, onde quer que fosse. Por isso, escolheu desbravar o Novíssimo Continente. Sabia que a tarefa só podia ser sua.

Assim foi. Financiado pela Coroa, Laframboise navegou 143 dias em uma barcaça de nome "Le Watterloo" e desembarcou em Ua Huka, ao noroeste do Taiti. Logo contou com a admiração dos locais, que o reverenciaram por compreenderem parcialmente o que ele dizia com suas meias palavras, semelhantes ao idioma da região. Sentiam-no como um guia, enviado pelos mares. Rapidamente se fez popular.

Sorte não parava por aí: Laframboise chegou ao destino em 9 de outubro de 1829, dia do aniversário do monarca. O rei demonstrou gran regozijar com a notícia, dois meses depois, quando a ouviu do mensageiro que trouxe "Le Watterloo" de volta. Quase pediu um decreto para homenagear o desbravador, mas o redator estava de folga, o que inviabilizou a empreitada.

Não se pode interceder, no entanto, pelo fato de que isso tenha mudado o destino de Laframboise na Polinésia. O combinado era um retorno em dois anos. A falta de coordenadas da região, no entanto, impediu o resgate do brilhante homem e de sua tripulação. Homens que não mais quiseram ser resgatados. Sabiam que tinham um papel histórico para com aquela gente simples, meio tosca talvez.

Ouviam o guru poeta, que respondia sempre: "Ten temp e ten pacie. On nã exis alm, dev exis u ling e u estim a am!", escreveu ele na primeira de suas obras, chamada "Diar d Ua Huka, a Jorn Se Retor". Com a persistência de Laframboise, o livro se tornou obra de referência para os habitantes da ilha, que também passaram a conhecer o papel, as escolhas e mesmo o próprio conceito de livro.

O esforço libertador por meio do conhecimento era o início de uma jornada desconhecida que mostrasse àquelas pessoas a noção de tradição moral sem corromper a originalidade libertária da qual eram dotados. (Continua)

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14.12.04

Estoniana

Sob um céu de granito, com os olhos envoltos em bolsas de suor e cílios quase brancos, Mariano Brickcovits, 23 anos, sobe no fio de civilização que o separa do vazio em algum sentido imensurável a sua frente. Equilibra-se, primeiro com um pé. Logo, a despeito do vento quente que chega pelas costas, é um Cristo com uma estranha mochila, de cabelo escovinha, camisa branca enfiada na calça jeans manchada e sapato lustrado há pouco: braços abertos, rosto brevemente caído para a esquerda, pálpebras ágeis: uma estátua de pescoço avermelhado e rosto lívido perante o vão do Masp. Embaixo, à frente e aos lados o oceano das máquinas paulistana constrói novas correntes, entradas, condutores. Mariano parece entender todo o fluxo, ergue a cabeça ferozmente, ainda de olhos fechados. Então volta devagar, uma fera censurada, e abre a boca, como se algo fosse largar um débil vômito. Mas não. “O poeta-suicida” começa a declamar. O som sai baixo, grunhido, envolto propositalmente em saliva.

Sim,

eles vêem:

armados de laços

De aço e:

Nanquim

Salta. É observado por um office boy desgostoso com a namorada, por três estudantes do ensino básico que naquele dia tinham sentido pela primeira vez o gosto do cigarro, por um executivo júnior demitido 47 minutos antes, por um homem calvo capaz de fugir à primeira pergunta, por duas amigas que foram até ali para fofocar sobre o chefe de ouvidos estranhamente bem conservados e por uma aposentada que acudiu, na baixa velocidade que a osteoporose lhe permitia, o “moço bonitinho que queria se jogar lá de cima, veja só”. Mas não conseguiu chegar até Mariano. Foi interrompida por Estela Cinco, “musa, ajudante, bibliotecária e escrava sexual de gênio”, como diz a camiseta justa que vestia e marcava os seios flácidos. Estela, que segurava a câmera com a qual registrava em tons expressionistas o momento, pôs a mão na testa da aposentada, esbravejando:

-Isso é arte, velha. Leve suas tralhas sentimentais para outro celeiro.

Os outros riram e cutucaram-se e apontaram o pequeno rebuliço. Não sabiam quem é Mariano e sequer entendiam o que ele estava fazendo. “Pensei que fosse um desses tiozinhos que sacam a beleza da bagaça, brou”, disse um dos estudantes.

Vivessem na Estônia de poucos anos atrás, estariam de joelhos, pedindo autógrafos à custa de sangue, atracando-se para tocar aquele que foi alçado por publicações daquele país ao patamar de “o mais promissor artista da para século XXI”. O que Mariano fez? Uniu poesia a esportes radicais!

O história do Artista segundo ele mesmo: “Ah, tudo começou em Brotas, no interior desse estado catártico de anseios deploráveis e cabeças rolando cheias de areia do tempo, essa coisa feérica que é sentir a existência sublimando-se rumo ao Palácio dos Bandeirantes...”. Como se percebe na primeira conversa, o forte do Mariano não é o diálogo ou o memorialismo – impossível entrevistá-lo: seu pensamento não possui cabrestos e sua linguagem desconhece limites lógicos. Estela, também sua relações públicas e câmera woman, arrisca uma possibilidade. Depois da filmagem no Masp, já em sua casa no Brooklin, com o pára-quedas de Mariano devidamente dobrado, enche a mão de gordurosos amendoins fritos e diz:

-Olha, ele sofreu um acidente, em 1999, né?[arroto] Tava descendo de rapel, bateu a cabeça, maior sanguera. Daí, quando acordou do coma, quis voltar ao local do acidente. Foi só colocar os pés ali na beira da montanha que ele desandou a falar umas coisas engraçadas.[longo arroto]

As “coisas engraçadas” a que ela se refere são tratadas no livro “Mariano, homem do ano”( Vikerkaar, 2004) do atarracado e hirsuto promotor de festas estoniano Piotr Huoel, como “o limite entre a capacidade humana de se debruçar sobre si mesmo ( de afiar o auto olhar cruel nas paredes porosas deste umbigo cognitivo) e o próprio desaparecimento físico, tratando-o não como um fim, mas como o único combustível não fóssil de tudo que existe, rindo da cultura do risco que o banaliza como uma mera normalidade – com certeza não poética” (tradução livre).

Huoel é o pai midiático de Mariano. Conheceu-o no Carnaval de Salvador em 2001, para onde o agitador cultural fora em busca de uma mulata que conhecera na Internet e que descobriu, ao chegar lá, ser uma prostituta. Contrário ao turismo sexual, tentou um pacote promocional para pular de pára-quedas oferecido pelo hotel. E foi então que viu o homem franzino e loiro (quase engolido pela enorme mochila e sempre acompanhado de uma senhora de vestes indecentes) sentado. O homem que fechou fortemente os olhos, antes de pular, e que disse palavras que o estoniano muito doido nunca esqueceria (“tarde de sol/ criança lunar/ nasceu amputada/ de solidão”). Versos que, anos mais tarde, ele seria capaz de declamar prontamente, com os olhos brilhando.

Depois, em terra firme, aproximou-se. Tentou conversar. Difícil “Ele estava arredio, uma de suas fases mais atonais mesmo”. Mas Estela falava.E muito. Explicou-lhe o acidente, a surpresa, a revelação. Também explicou o passado de vendedor de carros em uma revendedora de usados em uma decadente Vitória (ES), a paixão surgida em uma festa de aniversário da filha de uma vizinha. Falou sobre o início difícil - ela tinha 30 anos a mais que ele – sobre as tórridas noites em um auto-lanche da cidade, sobre como teve a idéia de começar a gravar tudo o que o já acidentado marido dizia e, finalmente, sobre como agradeceu a vontade incessante dele de entrar de cabeça nos esportes radicais: ela adorava aventuras e acabava-se de se aposentar pelo Intituto Médico Legal de Vitória.

Huoel apaixonou-esse pela força imagética e espiritual do “poeta-suicida”, pela história ímpar e logo lhes comprou um par de passagens. Os levou para a Estônia e fez Mariano percorrer todos os programas de auditório do país (só no Canal 8 estoniano são sete programas do tipo por semana), inscreveu-o num show de calouros literário da principal rádio de Taliin e até conseguiu que ele gravasse um disco minimalista com uma espécie de José Miguel Wisnick de lá, Rivo Rõkov. Ao vivo, só falava em português. Raramente havia tradutores. Ainda assim, todos pareciam gostar do que ouviam e não entendiam.

Mariano era então um mudo e abrupto superstar estoniano. O dinheiro fluía como um mosquetão livre de nós. Não podia mais andar anônimo pelas ruas de Taliin sem ser agarrado, fazia apresentações conceituais na Universidade de Tartu. Foi parte do júri oficial de uma mostra de documentários sobre os nativos de pele alva; era aclamado como o “profeta de um lindo renascer em cabos entrelaçados” em grafites pela cidade. Figurou em caixas de leite e até um preservativo “larger” levava suas imagens e palavras. Uma das novelas mais populares da Estonia chegou a ter um personagem brasileiro e as trocas comerciais entre os dois países aumentaram 2,8 %. Algo acontecia, o “furacão mudo e enigmático chamado o que?, Chamado Mariano!”, como crianças da classe média alta diziam no final do período escolar em brincadeiras de roda.

Levemente entediado com um mundo que não parava de girar a sua volta, logo teve suas primeiras experiências com o submundo estoniano: orgias com “pálidas selvagens” (como escreveria para a mãe mais tarde) e infinitas sessões de meditação turbinadas pelo Rjiituh, o daime feito com água de neve derretida por obesos e peludos homens com mais de 80 anos em um secreto ritual local. Fez uma ou duas letras para uma banda de polka local, “La Banda de Polka de Estonia” e freqüentava um bar reconhecidamente anarquista no centro velho da capital. O que havia?

A mulher também se perguntava isso. “Foi aí que ele começou a perder o tônus artístico”, responderia, anos depois, Estela. Ela tinha sido, de certa forma, posta de lado no processo de arrebatação pública a que Huoel tinha submetido Mariano: perdera espaço na cama do Artista para estonianas bronzeadas e em seu coração para uma tristeza que crescia junto com o neve acumulada lá fora. O inverno chegara para a Estonia e para Mariano. E seus versos pareciam ter simplesmente se esgotado, até porque não lhe davam mais sessões gratuitas de tirolesa, rapel e congêneres. O frio era tanto que todos as atividades esportivas ao ar livre haviam sidas proibidas.

Pouco falava e quando o fazia algo era um misto de vergonha e auto-piedade. Dizia aos novos amigos , com frases estranhamente claras e diretas, que era uma farsa, um mentiroso. Nessa época de vacas e idéias magras é que ele lançou um panfleto em um encontro de esqui altamente concorrido no. No papelzinho amarelado, espalhado por um avião que nos dias de semana carregava pesticidas, um desenho dele mesmo enclausurado e uma frase: “Eu morri”.

Poucos entenderam, mas o choque na imprensa, que comparecia em peso ao evento, foi quase que imediato. Telejornais enfiavam câmeras em seu rosto já macilento e repórteres abelhudos vieram ao Brasil descobrir a verdade sobre Mariano Brickovits. Colunistas articulados revelavam as festas e achavam as mulheres e os falsos religiosos que tinham as tinham freqüentado. Se saísse na rua, era taxado de mal agradecido, maldito, brasileiro e, ironicamente, de suicida. Até Estela deu uma entrevista o jornal “Eesti Paevaleh” falando sobre a ruína da vida privada do Artista, pela qual pagou com uma tremenda briga - tremenda a ponto dos vizinhos albinos do casal chamarem a polícia. Um crítico literário da revista Vikerkaar disse, em lúcido artigo: “Mariano parece, finalmente, ter entendido que não se pode desafiar a morte sem sofrer algum tipo de conseqüência. De uma maneira bisonha, fez sua cova e escreveu sua lápide. Que Olovon guarde sua alma”.

Ele voltou ao Brasil, ele reencontrou tirolesas, base jumps e rapels; ele reencontrou as palavras, as mastigou, engoliu as mágoas, ele olhou para o mundo como uma criança e ouviu os anjos chorarem. Viu as dívidas comerem a aposentadoria da mulher, a amou como louco, aprendeu a passar roupa e a ler auto-ajuda, viu os anos chegarem e a mente ás vezes querer explodir; ele aprendeu a gritar para vender fitas k-7 e, recentemente, Cds com seus poemas no Largo da Batata, em São Paulo; e Mariano sabe que ainda é o mesmo adolescente que percebeu que perante a vertigem e o ridículo da existência, nos agarramos ás palavras e ao medo com o mesmo entusiasmo com que um homem, um dia, dobrou o primeiro pára-quedas. Ele ainda é um Artista.

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13.12.04

Uma equação literária

Ao contrário das pessoas normais, que não têm consciência de sua própria razão, os loucos têm ciência de sua loucura. Alguns poucos brincam com isso. Jogam. Fazem dos homens e mulheres joguetes para a sua mente criativa. Criam descaradamente. São os gênios. Os raros gênios de verdade, que aparecem de tempos em tempos nas mais variadas áreas do conhecimento humano.
Um deles é o brasileiro José Airton Ribeiro, o Macarrão, como é conhecido carinhosamente pelos seus amigos da Academia Campinense de Letras por causa de seus longos cabelos louros, com alguns fios ruivos, que conferem à sua vasta cabeleira um aspecto reconfortante de macarronada de domingo. Embora sinta-se um pouco desconfortável com a alcunha, José Airton Ribeiro prefere não causar confusão: "Lunatacs prodicentum, tub causen", afirma. "wsder, drftgty hujiko lokijunm". Ribeiro, como se vê, nas faz concessões.
O motivo é claro. Aos 90 anos, sua capacidade intelectual lhe reserva o destino de o mais importante crítico literário da história da humanidade, título conferido pela International Universities Association, fórum criado pelas melhores universidade do mundo. Seus livros circulam em edições limitadas, restritas a poucos pares. Seu salário mensal, uma pequena fortuna estimada em 600 mil dólares, valor equivalente ao que recebe o craque Ronaldinho no Barcelona, é bancado pela Universidade de Dussex, da Inglaterra. Segundo o contrato firmado entre Ribeiro e os súditos da rainha, o brasileiro se dispõe a não divulgar, de maneira alguma, cada frase do que escreve. Os direitos sobre a sua obra pertencem exclusivamente à Universidade, que pretende estudar em primeira mão as intrincadas conexões literárias efetuadas pelo que eles chamam de The Spaghetti. Ribeiro, por sua vez, não admite escrever em qualquer outra língua que não seja a sua própria. Língua, aliás, que ele não revela o código. Hoje, o maior desafio dos estudiosos ingleses é tentar decifrar seu idioma. E, depois, entender as suas idéias.
O cérebro de José Airton Ribeiro não suporta os limites impostos pelo mundo tangível. Sente-se desconfortável em esquemas linguísticos históricos. Ou seja: todos os idiomas já criados na face da terra. Como estudioso incansável, Macarrão aprendeu todas as línguas do mundo. Além disso, sua capacidade matemática ímpar lhe permitiu inventar uma complicada equação, baseada em funções cartesianas e no teorema de Fermat. Com este feito, Ribeiro pode não só criar seu próprio idioma como também prever a evolução de todas as línguas do planeta. O problema é que são poucos os que entendem o funcionamento da célebre equação, conhecida como O paradigma de Ribeiro. Além disso, compreende-la é algo que leva tempo. Quando foi divulgada pela revista Science, em 1978, Macarrão foi ridicularizado. Até porque escreveu o artigo de explicação para a comunidade científica na língua para a qual, segundo a sua equação, convergem todas as línguas do mundo.
Em um de seus raros ataques de fúria – Ribeiro fala como um canário canta – fez uma concessão: para demonstrar a viabilidade de sua equação, traduziu o artigo para o inglês e submeteu sua equação a uma prova técnica, para que seu funcionamento fosse comprovado pela comunidade científica. Não deu outra. Hoje, passados 26 anos , Ribeiro ganhará o prêmio máximo da Universidade de Harvard por ter previsto o surgimento da linguagem "naum, eh so alegria", usada pelos adolescentes em blogs e conversas de computador. Isso, anos antes de qualquer sinal de internet no planeta. Justa premiação para quem, desde aquela época, amargou o pior que o ostracismo tem a oferecer.
Nascido em 1904, na cidade de Americana, estado de São Paulo, José Airton Ribeiro aprendeu a ler e a escrever com 2 anos de idade. Seus pais, agricultores analfabetos, não entendiam o que se passava. Achavam que o menino tinha algum problema mental, algo que lhe conferia algumas habilidades – como aprender a falar antes de andar – mas completamente incapaz de cumprir atividades básicas, como sentir fome. Desesperados, cansados – tinham que se lembrar de dar comida para o rapaz até os 15 anos, quando ele saiu de casa – o levaram para Campinas. Lá, o apresentaram para Barão Geraldo, dono das terras na qual os colonos trabalhavam em Americana. Encantado com as habilidades do jovem José Airton Ribeiro, o barão lhe enviou para a Inglaterra. E lá Ribeiro amealhou o conhecimento que o fez, até 1978, a maior celebridade em assuntos literários na Europa e nos Estados Unidos. Sua capacidade de descobrir conexões lingüísticas em obras díspares, como Dom Quixote, de Cervantes, e Fim de Partida, de Samuel Beckett, seu método de análise baseado em logaritmos, o fizeram pioneiro da introdução da matemática nos assuntos literários. Consta que Churchill se referia a Ribeiro como "patrimônio vivo da humanidade".
Seus dissabores começaram com a publicação do artigo na Science. A Universidade de Cambridge, onde criou a cadeira de Estudos Literários Matemáticos, o aposentou quando ele passou a lecionar na língua derivada da equação. Desgostoso com o maior fracasso de sua vida justamente naquilo que devia ser a sua coroação, Ribeiro voltou para o Brasil. Foi morar em Campinas, em um apartamento pago pelo espólio do Barão Geraldo. José Airton Ribeiro decidiu que seria um homem normal. Para tanto, isolou-se. Não leu mais nada, não escreveu mais uma linha. Sem mulher, sem filhos, quis aprender como sentir fome, como sentir frio, como as pessoas conseguem amar umas as outras. Até que uma equipe de pesquisadores da Universidade de Harvard, a única que acreditou na equação em 1978, conseguiu provar que José Airton Ribeiro estava certo. Descobrir seu paradeiro foi simples. Vaidoso, Ribeiro deixara uma carta à direção de Cambridge. Nela havia todas as coordenadas para encontrá-lo. E estava escrita em inglês, em português, em alemão, em francês, em espanhol e na língua que hoje adolescentes de todo o mundo usam em suas conversas pela internet.

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10.12.04

Es la economaquía, Dummkopf!

Poucos notaram o sorriso de soslaio no rosto do boliviano e futuro economista Tupac Athaualpa de la Cruz (1916-1996) quando o intelectual alemão Mortiz Schlick (1882-1936) caiu morto com um tiro no peito, desferido por um ex-aluno insatisfeito com as considerações do pai do positivismo lógico a respeito de um ensaio que escrevera. Pudera.

Naquele corpo de menino indígena, viver e estudar na cidade onde se reunia a nata da intelligentzia européia não era uma benesse. Era uma ofensa para a qual só havia refúgio nos livros que escrevia e ficaram no fundo de suas gavetas até serem descobertos há seis anos, pela ex-amante de seu filho Evo.

Tupac não foi um gênio reconhecido em vida, tendo ele passado a maior parte de seus dias como um obscuro bibliotecário em Graz, em terras austríacas. Logo aos 22 anos, aquele que seria anos mais tarde considerado o principal nome da economia boliviana foi arrancado do bairro mais rico de Cochabamba e mandado à Europa, por não aceitar as ordens de seu pai, homem averso à idéia de ter um filho revolucionário.

Os problemas vinham desde os 15 anos do rapaz, que já defendia uma concepção econômica que o acompanhou até a morte: a economaquia, derivada da titanomaquia da mitologia grega.

Para o pensador, a economia mundial deveria ser baseada em fortes choques, de capitalismo, de estatismo, de confiança e de dúvida sucessivamente, com vista de se atender ao máximo de interesses o possível, em uma intrincada cadeia lógica hegeliana. A depressão de 1930 e a incipiência do pensamento keynesiano só reforçaram as crenças do rapaz, que ria dos pobres norte-americanos se acotovelando em filas de pão.

Para ele, aquele estado de coisas só apresentava uma via para a salvação: "Es la economaquía, estupido!", costumava dizer naquele que era seu principal chavão, segundo sua biografia não-autorizada "Os Passos do Terceiro Tupac", do jornalista Matheus Pichonelli.

Tupac pensava ser de melhor aplicação em alguns momentos o sistema friedmaniano, de robotização dos índices que regem os agentes econômicos. A sua genialidade e ponderação, no entanto, depois rumavam às idéias de Espinoza, segundo quem a economia deve ser sempre subordinada à política, a maior das artes - pregava a centralização do poder e a limitação do raio de ação dos agentes populares.

Então tornava-se bolivariano. Depois liberal. Mais tarde, anarquista. E tudo com coerência impar, fruto de sua imensa capacidade de rever conceitos e ajustá-los a uma realidade cada vez menos perene e mais intangível. Tupac não aceitava ser refém da obscuridade, mesmo em uma Áustria que sempre lhe foi alheia. Tinha luz própria e desdenhava dos "dummkopfen" que o ignoravam.

Quando Schlick foi morto, o descendente incaico, cujo nome é uma homenagem ao maior herói daquele povo, não mostrou nada do seu poder de insuflar e arrebatar mentes e corações, como fazia quando era líder estudantil e sindical em sua terra natal - época de sua vida ainda pouco clara, dada a falta de documentos históricos do Departamento Nacional de Movimentos Populares, localizado em Sucre. Sabe-se apenas que Tupac se sentia prostrado a utilizar sua oratória em alemão e mesmo em redigir no idioma teutônico, apesar de dominá-lo, bem como fazia com o quíchua e o papiamento.

Foi então que veio o Anschluss e a economaquia Tupac começou a se refinar. Pouco passava a sobrar do menino que aos 12 anos via seus vizinhos ingerindo pálidas folhas de coca, enquanto seus pais o incentivavam a fumar o refinado rapé. Tupac já era feito homem e exibiria seus dotes intelectuais de forma inequívoca assim que o Terceiro Reich se instalou na outrora bela Viena. (continua)

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8.12.04

Lobo D'almada

Em seu clássico Das dores da Xilocaína, de 1962, o crítico Anatol Rosenfeld qualificava a obra de Lobo D’almada como uma das maiores contribuições já feitas à literatura em língua portuguesa na história, chegando a apontar o poeta, escritor e ensaísta gaúcho morto em 1953 como o único e legítimo herdeiro da tônica lírica de Camões e Ramalho Ortigão. Exageros a parte, o fato é que a obra de D’Almada ganhou enorme respeito da crítica acadêmica brasileira e principalmente estrangeira, apesar de nunca ter chegado ao olhos do grande público." Os livros de Lobo são herméticos. Diria que são um divertimento exclusivo, apenas para iniciados", diz o blibliófilo José Mindlin, que guarda em sua biblioteca um exemplar autografado da primeira edição de O encanto de Armando, livro lançado por D’almada em 1942. "Só fui conseguir entender a grandiosidade daquela prosa intrincada e complexa no ano passado, com a maturidade", admite Mindlin, que está oganizando junto ao poeteiro Maurício Savarese a reedição de todos os livros do autor.


Nascido em 1897 na pequena São Borja, D’almada não pode ser enquadrado em nenhuma das correntes estéticas do século XX. Gostava de dizer que sua única influência literária havia sido sua professora de primário, e que depois disso não tocou em mais nenhum livro a não ser os que escreveu. Mas em sua obra é possível sentir todo o gosto amargo do barroco espanhol e das narrativas orais gauchescas. O poeta Haroldo de Campos no ensaio Uma D’almadíada Lupibarrockodélica, publicado na Revista da Civilização Brasileira em 1969, classifica a obra do autor "como um espelho hermético-hermenêutico em que se misturam barrocamente forma e conteúdo, com quê de Pound e um não-quê de Mallarmé".


Seu primeiro livro é Marra-a-marra-me, Satanás, de 1910 , quando tinha apenas 13 anos. Nele, D’almada narra a história de um gaúcho-sem-nome que vaga com seu cavalo pelos pampas numa viagem interminável. A obra lhe rendeu três anos de prisão por atentado aos bons costumes e o ódio de Olavo Bilac, poeta brasileiro mais respeitado da época, que é ironizado no livro e chamado de homossexual. "O livro é de uma grandiosidade ímpar. O pampa vai tomando conta do gaúcho-sem-nome até que ele se torna mais um tufo de grama a ser pisado pelos outros milhares de gaúchos, que estupram Olavo Bilac", diz a economista Maria da Conceição Tavares, outra confessa admiradora e estudiosa da obra de D’Almada.


Em 1915 lança seu primeiro livro de poesia, Alcança-me o pampa, com 650 páginas de um único poema composto por versos de uma só sílaba. A crítica o aclama como um grande poeta, e ele é convidado para ir ao Rio de Janeiro para ministrar palestras. Chegando à capital do país, é desafiado por Bilac para um duelo. Sem saber manejar a espada adequadamente, D’almada é ferido gravemente, e tem que amputar uma das pernas. Volta o Rio Grande do Sul, onde em 1920 lança Bólido melancólico, livro de poemas que depois renegaria.


Convidado por Mário de Andrade para participar da Semana de Arte de 1922, vai à São Paulo, de onde volta decepcionado, dizendo que os modernistas não passavam e "maricas cheios de gabolice". A briga com lhe rende anos de ostracismo, que só é quebrado com o Elogio da miniatura, de 1933.
(continua...)

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Crítica de uma razão impura

Crítica de uma razão impura

"Euskera! Bizikidetza eta Bakearen Pedagogia Euskal Herrian gaur egun!" (Nossas língua e cultura! Educar a todos é fundamental para a convivência e a paz no País Basco!)

Joaquín Beriguenstain (1879-1914)


Joaquín Beriguenstain é, antes de tudo, um basco. Apesar de se saber muito mais sobre ele por conta da tradicionalmente oral cultura daquela região, abrangida por Espanha e França, poucos escritores podem se dizer capazes de utilizar regionalismos para simbolizar dramas tão universais quanto fez "El Txaxi", em seus 35 anos de vida.

Desde o início da disposição em se consolidar uma identidade nacional basca, esse paladino da palavra não indo-européia peregrinou como um mouro para difundir o idioma e a cultura "euskera" nas regiões mais inóspitas da Europa e do Norte da África.

Relegado ao esquecimento, bem como Euskadera Ferrero (1693-1745) e Henri Batasuna (1843-1893), esse homem esguio, fino no trato, segundo contou um parente espanhol de minha avó Lazinha, e de feições levemente nórdicas ajudou a minimizar a secular influência árabe no norte da Espanha. Ele assim fez em sua querida e católica Navarra, apesar de tudo indicar que ele tenha nascido em Sán Sebastian, além de ter sido o maior pregador da independência de sua província natal.

Para isso, o literato, que passara sua juventude inclinado a fazer o curso de Direito, mas desistiu por desapego às leis e amor à Justiça, não media esforços. Filho de um importante empresário da indústria de laticínios, fazia questão, desde seus 22 anos, de escrever e imprimir seus livros em basco e iorubá, com o principio que guiou sua existência: educar os mais fragilizados.

Conta-se que Beriguenstain seguiu da Argélia ao então Congo Belga, hoje Congo-Brazzaville, para distribuir seus textos, lê-los em praça pública e tentar incitar a população local a se rebelar contra a exploração européia. Foi assim que surgiu seu livro mais conhecido, "You May", concebido como um escárnio da língua inglesa e cuja data da primeira impressão se desconhece. Segundo minha avó, um conto traduzido do teatrólogo ucraniano Anton Tchekov (1860-1904) vinha junto do livro de Beriguenstain.

Não há confirmação oficial de que nada disso tenha acontecido, até porque a história de Beriguenstain sobrevive no boca-a-boca, e não em relatos de livros e grandes documentos. Beriguestain falava com desenvoltura, ao que parece, quatro idiomas: espanhol, inglês, basco e iorubá.

Isso sucitou a interpretação da zombaria com a anglofonia no título de "You May", que poderia significar "Tu maio", e não o aparente "Tu podes", uma vez que os africanos justificavam a maior tendência dos colonizadores à violência no quinto mês do ano em virtude da posição do sol.

Existe margem para explicações ainda mais inquietantes sobre o sentido do título. Fernando Vives, um biólogo que fala iorubá, me informou que "You May" pode se tratar de uma palavra sibilante no idioma africano com "Iyê", pronunciada com a extensão da última letra.

O léxico significa "mãe" - de onde sai a vida - e ainda é próxima de uma outra palavra do iorubá cuja tradução é algo como "prisão da qual se pode sair uma ou duas vezes, mas nunca uma terceira". Com grande sensibilidade, segundo o relato de um tio-avô, Beriguenstain inverte a relação colonialista, o que será retomado pelo escritor árabe Tayeb Salih em sua obra "Tempo de Migrar para o Norte".

O colonizado passa a ser o colonizador, sem a mesma violência dos europeus, mas sim com amor, educação, compreensão e aceitação do outro. Jeffrey Marshall, um soldado do Império Britânico à caminho da Nigéria, desiste de seu idioma por amor a uma princesa tribal africana, a bela Kalijah, que passava por Marrocos depois de uma viagem à Espanha.

O militar, que avistara a bela africana - chamada de "A Princesa Pobre", sem sequer uma carruagem digna de seu título de nobreza - em uma barcaça atravessando o Estreito de Gibraltar, a encontra em Casablanca e, fascinado, se dispõe a ser escravizado por Kalijah. A negra aceita Marshall, contanto que ele aprenda sua língua.

Depois que isso acontece e o inglês busca iniciar uma relação física com Kalijah, mas ela impõe que sua cultura também deve ser aprendida e estudada pelo europeu. Marshall hesita, reclama e aceita o desafio. Até que Kalijah, depois de o inglês se humilhar e chorar diante dela pela primeira vez, aceita o homem e seu renascimento como um africano. Ela se torna a mãe dele - a sua amada Iyê.

Do lado de baixo do Equador africano, o livro deixou marcas indeléveis, também por ter sido o ápice de uma carreira que acabou poucos anos depois com a morte do escritor, por quem houve choro e rituais que uniram a todos - hutus, tutis, árabes e negróides.

Mas se Beriguenstain teve de desencarnar, o mesmo, no entanto, não aconteceu com o desejo pelo pan-africanismo/pan-basquismo, ainda resistente e ativo com as nuances humanistas e iluministas trazidas por um dos maiores representantes de sua cultura e de seu tempo.