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31.1.05

Por Onde Anda Alessandro Taludo?

Talvez Alessandro Taludo não fosse Alessandro Taludo não fosse ele autor de músicas clássicas da chamada nova Música Popular da Brasileira, como Ultraje ao Sujismundo, Limpando a Geladeira Libidinosa ou Amando sobre as Saias da Vossa Mãe. Talvez Alessandro Taludo não fosse Alessandro Taludo se não tivesse escrito naqueles idos 1985 aquilo que foi considerado o grande dicionário da sonoridade nacional: A Flor da Puberdade. Talvez Alessandro Taludo não fosse Alessandro Taludo se não tivesse subido no palco com Raul Seixas para cantar O Diabo é o Pai do Rock e dedicá-lo a Robert Carlos. Talvez. Quem observa o jeito sereno, sem porte e sem dom desse mais nobre filho da pequena Thermas de Ibirá, interior de São Paulo, que nascera surdo-mudo e que adquiriu o gosto pela música ao ver o pai batucando lata nu sobre o telhado quando os sons lhe começavam a fazer sentido, imagina que o destino lhe concedeu mais de uma dúzia de oportunidades – fortuna, no jargão maquiavélico – para se tornar Alessandro Taludo. Enganam-se, pois. É fato que Alessandro Taludo só é Alessandro Taludo porque um dia resolveu escrever uma carta de repúdio a Ney Matogrosso, quando não somava oito anos. Foi na época em que o mais famoso membro dos Secos e Molhados andava enamorado com a cidade de Thermas de Ibirá, tomando banhos que lhe tomavam dias nas banheiras curandeiras do Balneário Adhemar de Barros. O garotinho, fã declarado de clássicos como O Vira e Sangue Latino, veio até o ídolo e entregou-lhe a carta, que continha um pedido eloqüente: que virasse macho. Considerando aquilo um insulto, Matogrosso não pensou duas vezes em mandar o menino correr e sumir da sua frente. O menino, criado entre bois e princesas, não arredou o pé. “Olha que te dou, hein!”, emendou, furioso, o cantor, erguendo a palma das mãos sobre o pequeno Taludinho. Foi encarado com a mesma firmeza: o guri disse que não era ofensa, mas sim uma dica. Era um bom cantor e intérprete, mas que deixasse a vozinha para Elis Regina. Que cantasse como Jerry Adriani ou Nelson Gonçalves e faria mais sucesso com as mulheres. Matogrosso, então, perdeu a estribeira e mostrou as partes para Taludinho, que no dia seguinte relatou tudo, nu e cru, sobre o ocorrido, na Folha de T. de Ibirá. Revoltada, a cidade caçou o direito de ir-e-vir de Ney Matogrosso no interior de São Paulo, sob as palavras de ordem: “Vira macho, vira macho!”. Sobrou para o prefeito, Zé da Carnaúba, o problema de arranjar alguém, então, para cantar no festival de aniversário da cidade. Sobrou para Taludinho. De lá para cá, o rapaz tornou-se um fenômeno de carisma e coragem. Nascia dali um gênero musical talhado em marketing até então desconhecidos nas esteiras do mercado fonográfico: a agressão a outrem. Não houve uma música feita pelas mais de Alessandro Taludo que não destruiu, sem deixar rastros, os mais indefectíveis ídolos dos concertos para a Juventude. Foi desse tempo, mais precisamente no ano do lançamento de “Eu digo é Proibido Parar de Proibir”, de 1991, que Taludo passou a ser conhecido como William Safire da MPB. O jargão veio-lhe de bom grado. Dali em diante, o cabritinho, como era chamado na chácara onde cresceu, não fez outra coisa na cidade grande senão bater nos ditos incontestáveis. Assim, por pouco não acabou com a carreira de Chico Buarque quando estourou a música “Eu enfio o dedo no cúmplice”, sobre as relações do hoje sexagenário compositor com Toquinho. Hoje, aos 30 anos, Taludo diz de boca cheia que já fez de tudo na vida. Músicas de amor, de construção e de destruição, ode ao burguês e ode a João Pedro Stédile. Lamenta, somente, não ter se reencontrado nunca mais com Ney Matogrosso, de quem jamais escondeu a admiração. “Ah, se fosse homem!”, resume. Bem diferente daquele Taludo que não perdoava nem mesmo o pai, Rodrigo Taludo, ex-deputado federal pelo Amapá, o compositor hoje diz que não quer saber de briga: quer saber, isso sim, de literatura de ficção cientifica. Para julho deste ano, ele promete o lançamento de Kirk, um intruso no país de meu avô, baseado em conto norueguês. É esperar para ver.

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17.1.05

A onda da revolução

O ano de 1968 não foi particularmente feliz na então dividida capital alemã Berlim. Protestos marcados pelo líder estudantil Rudi Dutschke (1940-1979) sacudiam a cidade.

Organizações inspiradas no marxismo e consolidadas em ações terroristas floresciam ali e em toda a Europa. Barricadas e sangue abundavam em nome de uma revolução popular, liderada por setores da intelligentzia e da universidade. O Velho Continente eclodia em hormônios e em energia.

Ainda que o momento histórico fosse propício a tantas manifestações naquele interminável mês de maio, rondava na Alemanha desde muito antes um homem marcado pela humilhação do pós-guerra. Pela vontade de inovar e trazer novas ondas ao combalido, embora ativo, pensamento de esquerda.

Um homem de muito longe do Portal de Brandemburgo, ávido para rever as idéias de Karl Marx sem se render à coqueluche do maoísmo chinês, que trazia a Revolução Cultural. Um homem que nascera em 1946, na simpática cidade litorânea de Bremerhaven, ao noroeste do país. Seu nome era Andreas Stefan Waldner.

Também conhecido como Surfy Waldy, por seu amor às praias e ao surfe, ele abandonou a engenharia e a poesia para se dedicar a plantar a primeira semente de uma nova forma de luta pela igualdade socialista.

Um dos principais ideólogos teutônicos pós-nazi-fascismo, Waldner não se fez conhecer além das fronteiras alemãs e buscava a confluência do pensamento brianwilsoniano com o ideário marxista. Foi daí que floresceu uma concepção completamente nova de mundo.

Segundo ele, a revolução libertadora, ao contrário do que diziam os socialistas de então, não surgiria nem nas abarrotadas cidades e tampouco entre os famélicos dos campos de todos os países: ela tomaria o poder vinda do litoral.

A lógica de Waldner era simples. Para ele, as cidades costeiras reúnem condições melhores para se chegar ao centro do poder. Utilizando-se de uma intrincada cadeia lógica hegeliana, Surfy afirmava que campo e cidade se contrapõem de forma inexorável e que a síntese dos dois se encontra nas localidades costeiras, de população intermediária e material razoável para uma empreitada exitosa. Uma espécie de revolução das camadas médias, conforme disse ele em palestra aos alunos da Feuerneu, em agosto de 1970.

A idéia de Waldy no campo prático era aproveitar a falta de engajamento das pessoas desses lugares e cooptá-las para a causa, estimulando um sentimento de não-pertencimento às categorias definidas pelo marxistas como lugares de onde uma revolta poderia sair e tomar o poder. Aí se percebe a influência da psicologia social de Erich Fromm no trabalho de Andreas.

A surpresa do pensamento de Waldner arrebatou algumas tribos germânicas no noroeste do país, muitas delas insatisfeitas com os visitantes hamburgueses que lhes consumiam as belas reservas naturais em troca de uns poucos marcos.

Waldner convenceu os locais sobre a necessidade de se organizarem para libertarem suas consciências dos vínculos com os burgueses, para depois estender os ganhos a todo o resto da sociedade, inda mantida cativa do poder econômico.

Um obstáculo, no entanto, se entrepunha. Depois de escrever “A Onda da Libertação”, Waldy foi convidado a iniciar uma guerrilha, como seu líder intelectual. A oratória arrebatadora era garantia de novos adeptos. O que lhe atrapalhava era a narcolepsia.

Aos 22 anos, na tomada da Ilha de Flugel, um território inabitado a dois 2kms de Bremerhaven, Waldner sofreu mais de meia hora no mar após um ataque dessa terrível doença. Decidira cruzar as águas como se fora uma ritual de amadurecimento, como se passasse a ser um homem também de ação a partir dali.

Três enfermeiras o resgataram nas proximidades da ilha. Uma delas se tornaria sua esposa por 15 anos, até Waldner não mais voltar de um ataque de sua terrível e fragilizadora condição.

Fato é que aquele dia de natação marcou o primeiro passo de Waldner à organização de uma Intifada Litorânea, como gostava de chamar seu movimento.

Seria esse o título de sua segunda obra, publicada em 1971, na qual o pensamento marxista se confronta com o álbum Pet Sounds, do grupo norte-americano Beach Boys. Marx e Wilson continuavam a ser as maiores referências do surfo-revolucionário. (continua)